Inconscientemente, tendemos a assumir a comunicação como directa, lógica e consequente. Como se as mensagens que enviamos e recebemos fossem transportes perfeitos das ideias que lhes deram forma. Sabemos que não é assim, mas acabamos por cair no erro de, ao interpretar uma mensagem, abordá-la do nosso ponto de partida, identificando as nossas opiniões e valores. Ou cair no erro que os nossos destinatários entendam exactamente o que queríamos expressar.
O poema do post anterior é disso exemplo. Há quem o pense como uma sátira. Há quem o interprete como uma verdade. Há quem o entenda como um desabafo da alma, um grito de frustração!
Há quem o sinta como ilustrativo de como o amor se sobrepõe a tudo, de como não é influenciado por nada. Não importam os defeitos, os vícios, as dores, porque não são elas que dominam um coração. Apesar dos caminhos tortuosos, das injustiças e dos sofrimentos, o amor não se prende com nada disso, e existe para além dele, num outro plano.
Quando vivemos tempos em que o romantismo nos é apresentado como filmes lamechas em que acaba tudo bem, ou contos de fadas que já estavam desactualizados nos tempos dos nossos pais, já quase não se houve falar das grandes entregas amorosas. As relações são encaradas como a escolha de um automóvel, ao mínimo problema, compra-se um novo, a não ser que não estejamos em condições de ir ao mercado. Nesse caso, aguentam mais um pouco, porque mais vale ter alguma coisa que nada.
Prefiro as pessoas que assumem que não têm veículo, e que apenas dão umas voltas quando lhes apetece. Com honestidade e naturalidade, assumem a sua independência em não estar amarrados a um carro em particular. São francos e sinceros na sua abordagem das relações humanas e sexuais, muito embora essa postura seja muitas vezes, em si própria, mais um mecanismo de defesa preventiva que uma verdadeira concepção.
Por outro lado, cada vez é mais difícil para homens e mulheres manterem esse tipo de relações semi-independentes. O risco de confusão quanto às expectativas e envolvimento da contraparte é grande, originando desentendimentos e o fim das mesmas, em muitas situações. A dada altura, também nesse tipo de relação é difícil manter a sintonia. Talvez, por não existir tanta cumplicidade, a empatia seja ainda mais difícil de manter... Mas a coisa também se queria leve, portanto finge-se que não há problemas quando termina.
Tal como um automóvel, adopta-se a atitude consumista, procura-se algo novo. Há 15 anos atrás, lembro-me de arranjar a televisão a cores quando avariou (e ainda dura). Lembro-me do meu pai desmontar o motor do carro por completo (e acho que lhe sobraram peças, mas o carro não se queixou).
As grandes loucuras de amor (e não falo de gestos grandiosos para impressionar) já quase não existem.
Talvez por isso, há quem leia o poema e sorria, pensando que, com todos os defeitos que se possa ter, o Amor supera-os a todos... ou, pelo menos, tem em si essa capacidade, esse poder.