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quinta-feira, 13 de março de 2008

Desconheci-te

Vi-te, mas não te reconheci...

Mudaste o corte de cabelo. Estás agora muito mais favorecida, muito mais na moda e muito menos tu. Mudaste o teu guarda-roupa, tal como te mudaste a ti própria, e agora vestes com classe e bom gosto trajes que mostram quem tu queres ser e que escondem quem foste.

Olhei-te, mas não te encontrei...

Sorrias agora muito mais do que antes, mas perdeste o sorriso no olhar. Já não encaras o mundo de frente! Agora, preferes a visão um pouco distorcida do cinismo, reflectida na forma como inclinas o rosto, como um predador a medir as distâncias. A não ser que te sintas desafiada, e aí usas o queixo como seta, que apontas a quem te desafia. Longe vai a timidez, substitída que foi pela segurança que ostentas.

Falaste, mas não foste tu que eu ouvi...

O teu discurso já não é colorido com uma mão que enrola o cabelo, nem tão pouco um franzir da testa de curiosidade. Riste-te, e eu percebi que não já não sabes como! Soltas gargalhadas livremente... mas nenhuma delas possui a alegria contagiante de outrora.

Abraçaste-me e eu não te senti...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Aparências (III)

Olhou-o, esperançada de um lampejo de reconhecimento. Um pestanajar diferente, um enrugar momentâneo da testa, um trejeito dos lábios. Queria que ele a visse... toda, plena, queria que ele entrasse onde ela tinha medo de ir! Que a levasse pela mão, que lhe mostrasse que não havia nada a temer em si própria.

O seu ar confiante, o riso jovial, o doce ternura com que lhe falava, o franzir preocupado quando se concentrava, tudo lhe indicava que nele se poderia depositar e entregar, abandonando as rédeas do apertado controlo sobre si mesma...

Rir-se-iam juntos, inebriados em si próprios, e transformariam a noite em dia e o dia em noite! Enlevada, dar-lhe-ia a alma, e ele devolvê-la-ia lavada e nova, expurgada de medos e de lugares obscuros. Uma alma nova, a brilhar, que ele lhe daria, a troco de si mesma!

Ele olhou para ela. Ela exibiu o seu sorriso frio, e mergulhou no trabalho, absorta em si mesma. Será que ele a via?, perguntou-se.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Aparências (II)

Irritava-a sentir-se só.
Queria ser verdadeiramente independente! Gostar de estar com as pessoas, mas não precisar de ninguém, de ninguém.

Considerava-se acima das outras. Não se deixava seduzir por meias-tretas. Não se deixava enganar. Criava as distâncias adequadas. Numa sociedade rápida e mutável, agarrava-se com força aos valores de sempre. Eram a única referência que conhecia, a marca que pautava o comportamento de uma mulher, um guia de conduta.

Considerava-se especial. Diferente do comum, da maioria. Muito rigorosa, muito profissional. Exigente com todos e consigo mesma. Eram muito poucos os que deixava entrar na sua vida, e ainda menos os que lá permaneciam. A verdade é que rapidamente a desiludiam. Ninguém correspondia ao que prometiam, ao que tinha imaginado delas.

E ninguém a compreendia... acima de tudo, ninguém a compreendia. Não percebiam o que era seguir a vida pelos padrões que lhe haviam ensinado, o esforço despendido para manter a cabeça em cima dos ombros. Sempre! O decoro era importante, bem como o respeito. Claro que não há problema em brincar, mas dentro de regras.

As regras eram muito importantes na sua vida. O seu incumprimento constante era sinal de um desprendimento e de uma inconsequência que não deixaria entrar na sua vida. As coisas sérias eram para ser levadas a sério!


Jamais se deixaria desiludir outra vez. Era preferível a solidão fria de um apartamento vazio! Mas custava-lhe tanto...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Aparências

Sabia o que queria para si! O homem com que se imaginava seria atraente, forte, musculado, alto, culto, sensível, brincalhão, romântico, espiritual... etc. A lista apresentava um rol infindável e, se escrita, ocuparia dezenas de páginas. Depois de algumas experiências, e uma ou outra relação mais séria, tinha a plena consciência do que queria, do que não voltaria a ter, do que não voltaria a prescindir.

Não era ela bonita e agradável, divertida e querida?! Não possuía um sentido de humor requintado e inteligente? Porque parecia então que teria de ceder e aceitar menos do que o que queria? Não! Ninguém se deve contentar com menos! Ela não queria ser cobarde, não queria que a considerassem fraca. Não cometeria esse erro, não se acomodaria.

Era uma mulher independente! Educada e culta, experiente, assertiva e comunicativa. Muito profissional, dedicada e competente.

Acusavam-na de mau feitio...

Estava tão só...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Interpretações

Inconscientemente, tendemos a assumir a comunicação como directa, lógica e consequente. Como se as mensagens que enviamos e recebemos fossem transportes perfeitos das ideias que lhes deram forma. Sabemos que não é assim, mas acabamos por cair no erro de, ao interpretar uma mensagem, abordá-la do nosso ponto de partida, identificando as nossas opiniões e valores. Ou cair no erro que os nossos destinatários entendam exactamente o que queríamos expressar.

O poema do post anterior é disso exemplo. Há quem o pense como uma sátira. Há quem o interprete como uma verdade. Há quem o entenda como um desabafo da alma, um grito de frustração!

Há quem o sinta como ilustrativo de como o amor se sobrepõe a tudo, de como não é influenciado por nada. Não importam os defeitos, os vícios, as dores, porque não são elas que dominam um coração. Apesar dos caminhos tortuosos, das injustiças e dos sofrimentos, o amor não se prende com nada disso, e existe para além dele, num outro plano.

Quando vivemos tempos em que o romantismo nos é apresentado como filmes lamechas em que acaba tudo bem, ou contos de fadas que já estavam desactualizados nos tempos dos nossos pais, já quase não se houve falar das grandes entregas amorosas. As relações são encaradas como a escolha de um automóvel, ao mínimo problema, compra-se um novo, a não ser que não estejamos em condições de ir ao mercado. Nesse caso, aguentam mais um pouco, porque mais vale ter alguma coisa que nada.

Prefiro as pessoas que assumem que não têm veículo, e que apenas dão umas voltas quando lhes apetece. Com honestidade e naturalidade, assumem a sua independência em não estar amarrados a um carro em particular. São francos e sinceros na sua abordagem das relações humanas e sexuais, muito embora essa postura seja muitas vezes, em si própria, mais um mecanismo de defesa preventiva que uma verdadeira concepção.

Por outro lado, cada vez é mais difícil para homens e mulheres manterem esse tipo de relações semi-independentes. O risco de confusão quanto às expectativas e envolvimento da contraparte é grande, originando desentendimentos e o fim das mesmas, em muitas situações. A dada altura, também nesse tipo de relação é difícil manter a sintonia. Talvez, por não existir tanta cumplicidade, a empatia seja ainda mais difícil de manter... Mas a coisa também se queria leve, portanto finge-se que não há problemas quando termina.

Tal como um automóvel, adopta-se a atitude consumista, procura-se algo novo. Há 15 anos atrás, lembro-me de arranjar a televisão a cores quando avariou (e ainda dura). Lembro-me do meu pai desmontar o motor do carro por completo (e acho que lhe sobraram peças, mas o carro não se queixou).

As grandes loucuras de amor (e não falo de gestos grandiosos para impressionar) já quase não existem.

Talvez por isso, há quem leia o poema e sorria, pensando que, com todos os defeitos que se possa ter, o Amor supera-os a todos... ou, pelo menos, tem em si essa capacidade, esse poder.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A Fugitiva

Na curva de um caminho, depara-se-lhe uma menina frágil e assustada. As roupas rasgadas e os cabelos em desalinho, olhos muito abertos sem ver, arranhões nos braços e pernas e respiração ofegante, era evidente que tinha atravessado o bosque a correr, em fuga de algo...

Quando atrapalhada, recorre ao mesmo método de sempre. Um que, apenas aparentemente, lhe dá consolo. Um que, aparentemente, a conforta e sustém em tempos de crise. Na verdade, um escape que a afasta de si própria, e a prende a uma roda, na qual corre incessantemente. Incapaz de lidar com a sua própria frustração, assustada com a ideia de se imaginar pequenina e frágil e aterrorizada com a ideia de não controlar o seu mundo, nem a si própria, foge.

Corre apavorada, passando veloz por tudo, saltando muros, levada por um pânico avassalador de uma vulnerabilidade que imagina pior do que é (embora nunca a admita). Foge, rápida e letal, na vã convicção de que se não vir não existe, atacando ferozmente tudo o que, na sua mente, é um obstáculo ao seu objectivo principal e imediato: a Fuga.

Seguidamente, trata de rapidamente restaurar a sua habitual projecção de si própria, apontando um holofote a qualquer coisa que desvie a atenção, tentando que a escuridão encubra medos, falhanços e desejos irrealizados. Com anos de prática, é extremamente hábil na arte (que teima em perpetuar) de se mostrar forte, divertida, destemida e independente, eliminando da sua vida todos os que se atreveram a questionar essa imagem, ameaçando expor o Inaceitável. Transfere para estes toda a sua raiva e ódio, e dá lugar ao desespero que sente, num turbilhão de emoções contraditórias. Consome todas as emergias num esforço imenso, que se torna cada vez mais automático, e que lhe permite a ilusão de controlo, de acção, de resolução.

Observa-a partir de regresso à Roda que ela própria criou. Um dia, o aglomerado de medos, problemas e frustrações ingorados será um gigante demasiado grande para ocultar, demasiado forte para lhe fugir e demasiado pesado para o suster. Como um novelo gigante, terá de ser desmontado lentamente, com o quádruplo da coragem que lhe teria custado lidar com os fantasmas todos faseadamente...

... por outro lado, ninguém melhor que ela para enfrentar um Golias, quando encurralada e a isso for forçada.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Perfeições Imperfeitas vs Imperfeições Mais que Perfeitas

Começou por ser um comentário, a um (dois) excelentes textos publicados por esta menina. Mas ganhou vida e voou para aqui, sem eu perceber muito bem como.

Não acredito em perfeições. A perfeição é uma ilusão que traz associadas expectativas e exigências. Das coisas mais importantes que aprendemos na vida é a gestão de expectativas, e a não tentarmos fazer da vida o que ela não é. Só assim podemos realmente saborear um prato, ao invés de o remetermos simplesmente para um plano de comparação. As coisas novas saboreiam-se melhor assim, deixando que os sentidos as absorvam lentamente, na sua total plenitude, notando os sabores fortes das primeiras impressões, os aromas perfumados das características sempre presentes e o travo final.

Por cima disso, acredito na perfeição da imperfeição. Ou, parafraseando a Gi, creio que a imperfeição é mais-que-perfeita! Dado que cada um de nós tem as suas falhas, os nossos próprios modelos e projecções tornam-se pequeninos, face à espantosa plenitude da realidade. Falhamos também aí, ao formularmos o que queremos, descurando e mesmo olvidando pormenores fantástico e detalhes fundamentais. Na verdade, creio que ficaríamos muito descontentes se tivéssemos exactamente aquilo que almejamos.

A chave está na realidade, nas pequenas imperfeições que, na realidade, nos sustentam o amar.
Com ela, vêm desafios, debates, cedências, compromissos, conquistas, entregas e todo um conjunto de situações que dão cor à vida! Daí saem todos os maravilhosos desequilíbrios que nos alentam e motivam, imersos num mar de perfeição mais que perfeita que é o todo.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Enjeitado da Felicidade

Sentia-se bem! Contente, confiante e seguro, um verdadeiro garanhão!

Assumia finalmente o papel há muito almejado, conseguia o que queria. Estava a realizar os seus sonhos mais profundos e secretos, e um sorriso de satisfação arrogante era agora uma constante no rosto.

Continuava a amar (pensava ele) a sua companheira. Apenas já não lhe despertava tanta pica... Também, andava ocupado com outras coisas! Era normal que se tivessem distanciado um pouco... Nada que ele não conseguisse endireitar, se assim o pretendesse. Até dava jeito manter assim as coisas, deixava-o livre para explorar outros voos.

A presa não tinha sido fácil. Há muito cobiçada, ele havia conseguido manobrar-se até um papel de amigo próximo, com progressos importantes na confiança entre os dois. Mas o derradeiro passo não se vislumbrava possível.
A oportunidade caiu de repente, uma crise pessoal de auto-estima. E ele ali tão perto!! Não podia haver maior sorte. A corte foi subtil e intensa, baseada no relacionamento anterior. Vestiu a sua verdadeira pele, e assumiu o papel de predador. Finalmente!

E agora estava determinado a experenciar isto o mais possível, até se fartar. Era importante manter a imagem que gozava, até para si próprio. Tinha plena confiança que era capaz de dominar a situação, manter as duas! Queria afundar todos os medos na suprema arrogância da manipulação, mostrar a si próprio que era um homem, finalmente anular todas as frustrações de adolescente! Ser o maior! Pobre rapazinho trémulo e destinado à solidão...


Quando tudo se desmoronou, o pobre infeliz apenas foi capaz de experimentar frustração e auto-comiseração. E como foi incapaz de aprender com os erros, apenas pensa que teve azar desta vez... Como se o erro fosse ser apanhado, e não a mentira que é, especialmente, para si próprio...
Digo infeliz apenas porque vive tão enganado de si próprio que não tem a capacidade de experimentar felicidade, apenas contentamento, satisfação e gozo.

Como pastilha elástica, tem algum sabor, mas sem substância.

Pobre infeliz!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Sonhar?

Sonhar, sempre! Voar alto e longe. Renunciar os medos, aceitar os tombos, desfrutar das vitórias. Viver intensamente.

E não desesperar... Saber que a vida é uma incógnita e que o cosmos se rege por leis mágicas e mutáveis. Dar cada passo num trilho que construímos nosso, mas com os materiais que nos são dados.
Aceitar que todos os outros o façam também. O cruzar de trilhos é inextrincável, complexo e belo. Dele nascem novos sonhos, novos tombos, novos prazeres.


Deixar que os sonhos nunca morram na ideia, e saber que a forma apenas em parte depende de nós. Compreender que nós próprios precisamos de lutar pelas coisas, fisica, mental e emocionalmente. Sentir que "a espera é".

E sonhar sempre...

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A Tortura do Medo

Um aperto no peito, respiração difícil, os músculos presos. E um bater cada vez mais forte do coração, nervoso, quase que sem ritmo definido.

Uma onda de auto-recriminação invade-a. Fica furiosa! Porque há-de ser assim?! Porque foge quando não quer?! Porque se retrai quando quer avançar?!?! Porque há-de ser sempre assim?...

Não há explicação para aquele medo que a toma de assalto. A sua vida não teve sobressaltos de maior. Tudo foi muito pacato, muito sereno, as dificuldades usuais, os problemas habituais. Alguns momentos difíceis. Algumas decepções. Algumas alegrias. Nada de mais. Nada de mais...

E é isso que a desconcerta, que a enfurece, que a magoa que a entristece, tudo ao mesmo tempo! Que a faz envolver-se em mil e uma coisas. Ela sabe que é simpática, que é inteligente, que é agradável. E ela sabe que é apaixonada, que é carinhosa e meiga. Só ela sabe o quanto é isso tudo, o quanto tem para dar!! Sabe perfeitamente que se deixa ficar para trás por medo, que se encolhe e se aninha. Faz questão de criar distância mal alguém esboce um movimento na sua direcção.

E depois recrimina-se... Interroga-se uma e outra vez porquê! Porque não se liberta daquele medo, medo de tudo o que não conhece? Porque se deixa prender por teias invisíveis? Quer libertação, libertação de si própria e do medo que a enfraquece, que a faz parecer o que não é...


Às vezes dá um tímido primeiro passo. Expõe-se um pouquinho, dá um pequeno nada de si, na esperança que Alguém repare, que Alguém a salve.


Fica triste quando ninguém aparece. Retrai-se imediatamente, desconfiada, insegura e receosa, se alguém repara... Depois, recolhida em si mesma, questiona-se, censura-se, recrimina-se, pune-se... num ciclo vicioso.


Ela sabe o que tem de mudar. Ela sabe o que tem de fazer. Mas não consegue. Ainda não consegue...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A Menina do Forte

Foi traída pelo sorriso.

Mulher sociável e cosmopolita, extremamente simpática, é inteligente e sagaz. Um sentido de humor perspicaz. Envolve-nos na conversa, o olhar monopoliza a nossa atenção. Confrontada com naturalidade, responde prontamente, a conversa flui. Fala longamente de si, conta as suas
mágoas, as suas alegrias, os seus medos, os seus sentimentos. Deixa-se levar no momento com confiança e serenidade...

Foi o sorriso que a traíu.

Usava o sorriso como um escudo, deflectindo toda e qualquer intrusão ao seu espaço. Um medo terrível a assola constantemente. É básico e instintivo, fruto de anos de prática. Morre de medo de alguém penetrar naquele jardim secreto. Erigiu à sua volta um forte, que defende com todas as armas. O seu sorriso é o seu escudo, mas o humor é a sua arma. Usa a brincadeira para lançar uma névoa sobre aquele espaço íntimo. Como água, escoa-se por entre os dedos quando a tentamos pegar. "Não é com as mãos que se transporta água", penso.

E, depois desta consciência, tudo o resto tombou, as paredes do forte tornaram-se transparentes. Ela usa as palavras porque lhe permitem distanciar as emoções. Embora íntimo, tudo o que conta permite-lhe, pensa ela, criar a última barreira ilusória, em que defende aquele espaço sagrado. Com as palavras, tenta desesperadamente tomar o controlo das conversas, numa tentativa vã de se esconder.

Por último, também o olhar se desvenda. O seu olhar, quando compreendido, traduz o turbilhão de emoções e a confusão que lhe tolda os pensamentos. Assusta-se facilmente, rapidamente se torna desconfiada. As suas próprias emoções estão em constante mutação. O que se mantém sempre é o terrível medo de estar vulnerável.

Ilude-se... Acredita que a sua constante fuga lhe preserva aquele espaço secreto, quando na verdade está exposto através de muralhas de cristal. O seu precioso forte é a sua maior ilusão...

Por o acreditar escondido, é que se magoa tanto. Por isso é que a conseguem magoar tanto...

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Predadores

Falsos e hipócritas, predadores de almas perdidas, pairam nas sombras, preparados para atacar ao mínimo sinal de fraqueza.

Vejo-os por todo o lado. Autênticos camaleões, conseguem transformar-se instantaneamente nas pessoas que procuramos. Guiados pelo faro do seu egoísmo, conseguem cheirar uma ferida na alma a kms de distância. O seu único intento é o de saciar a fome de veneração, companhia, sexo, poder ou dinheiro (ou todas as anteriores), enterrando os dentes directamente no coração das suas vítimas e fugindo com um grande pedaço.

Astutos caçadores, cujas prioridades são apenas eles próprios, recorrem a todos os truques, a todas as manhas, para atingirem os seus fins. Jogam com os sentimentos de culpa, de honestidade e de sinceridade das suas presas. Subtilmente, carregam os dedos nas feridas, agudizando a dor, enquanto fingem tentar curá-la. Lentamente, ardilosamente, vão isolando a vítima, separando-a através de pequenas mentiras, meias-verdades e insinuações de outras esferas de influência. Transformam-se e tentam transformar a realidade imediata da sua vítima, num jogo de sombras e ilusões. Depois do ardil montado, recostam-se e saciam-se num festim que dura o máximo de tempo que conseguirem, ou até farejarem uma presa melhor.

Alimentam-se da beleza que eles próprios aniquilam e abandonam as carcaças vivas, muitas vezes culpando a carcaça. Como culpar uma flor por secar depois de lhe arrancarmos a raiz…

Sou muitas vezes caçador destas bestas. Ilumino-lhes os olhos selvagens, a cobiça e os ardis. Trago luz ao caminho das vítimas. E depois fico com elas nos braços, moribundas, necessitando de cura. Cada vez mais me interrogo… Quem sou eu para quebrar a ilusão de alguém? Não seria melhor responder “Sim, é o melhor que te podia ter acontecido. Nota-se a dedicação e o amor!”, com um sorriso nos lábios e esperar por um pedido claro de auxílio, se ele vier? Como responder ao pedido “Dá-me a tua opinião sincera”?

“Com a verdade.”, ouço-me a mim próprio. “Mas não sem que antes ta solicitem…”

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Quis saber quem é...

Perdida entre o mundo que lhe ensinaram e a realidade de todos os dias, encara o mundo como uma peça de teatro, onde desempenha o papel que acredita ser o seu…

Fugindo ao confronto consigo própria, refugia-se na falsa segurança do papel que definiu para si própria nas últimas duas décadas. Na sua cabeça, qual imagem guardiã, ela manteve fielmente o retrato da mulher que quer ser, um modelo que a sociedade lhe impõe constantemente.

Atraente, sensual, segura, inteligente, perspicaz, independente, simpática, social, forte, agradável, autoconfiante, querida, sensível, sexual, meiga… uma Mulher! De humor fácil e inteligente, de raciocínio claro e frio, segura de si e dos outros, à vontade em todos os ambientes, transpira beleza e independência, sedução e carinho. Capaz de uma amizade profunda, de ajudar as pessoas, sensível e meiga, mas também de ser fria e desprendida com todos aqueles que a magoem. As pessoas encantam-se com o seu sorriso sincero, derretem-se com a sua voz doce, temem a sua desaprovação e buscam o seu conselho. Em todas as situações lida com extraordinária leveza, mas pulso de ferro e vontade de aço, enquanto um sorriso beatífico e sereno lhe curva os lábios. Uma Mulher moderna, pronta para o mundo, cosmopolita e sofisticada!

Doce ilusão… O papel é impossível de desempenhar para sempre. O “eu” reprimido insiste em aparecer, as dúvidas manifestam-se. Alguém a magoa e isso dói, muito mais do que deveria doer. “Não sou eu superior a isto tudo?!”. Uma situação crítica irrompe e sente-se frustrada e triste. “Então?! Tu sabes sempre o que fazer! Quantas vezes não falaste disto com as tuas amigas e amigos?” O mundo não corresponde como é suposto.

Ela faz um esforço e continua. “Para a frente é que é o caminho.” Não se interroga, não se questiona, tenta adaptar-se ao mundo, sorri com as adversidades, a mulher que ela vê existe, só teve azar, as circunstâncias foram más. Mas a dúvida persiste… Lentamente, muito levemente, os conflitos internos surgem. Dia após dia, uma crescente insatisfação cresce. “Quero mais, quero muito MAIS!”, uma mulher escondida solta o seu grito de Ipiranga.

Finalmente, procura nos outros a confirmação das suas opiniões, a confirmação de quem é! Sonda tudo e todos, testando-os constantemente. À medida que, mais uma vez, os vários feedbacks não são os desejados, vai mudando o papel, como se de um vestido novo se tratasse. A menina inocente, a mulher sofisticada, a mulher sexual. Uma qualquer mistura de tudo isso! Qualquer coisa!

Não se deixa afundar. Mais uma vez, molda-se um pouco, tenta uma nova abordagem, um novo papel. Tudo menos admitir que está um pouco perdida, que não sabe bem quem é, que há qualquer coisa que não bate certo. Refugia-se nos lugares comuns. "Sou mulher, sou de extremos, sou emotiva, sou apaixonada."

Talvez um dia perceba que é tudo aquilo que sempre interpretou. Talvez um dia compreenda que é tudo o que quer ser. Talvez um dia descubra que se a mulher que sonhou existe, é porque alguém a sonhou. Talvez um dia sinta que essa mulher é uma construção e um destino, mas que o caminho, esse é só dela!


Talvez um dia…

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sós ou Mal Acompanhados?

Vejo as suas mágoas, tantas vezes mascaradas com sorrisos frágeis e desvios de olhar. Reconheço as suas inseguranças entre as aparatosas apresentações de autoconfiança. Sinto as suas dúvidas nas mais portentosas afirmações de certezas inabaláveis. Contemplo a sua solidão no incessante galopar das suas palavras, que usam como arma para calar qualquer silêncio que lhes ameace gritar aos ouvidos…

E vejo o medo! O medo de não ser apreciado, de não ser aceite, o medo da solidão. Encontro pessoas perdidas dentro de si próprias, ofegantes por conforto, carinho e Amor. Sinto-lhes o desespero de ter QUALQUER coisa, tudo menos o desconforto frio, o vazio gelado, de ficarem sozinhos consigo próprios.

Conheço bem os lugares tenebrosos e escuros por onde a alma torturada vagueia. Reconheço-lhes no olhar quando um qualquer fantasma se apodera e lhes arrasta o pensamento para os sombrios vales da Solidão, da tristeza e da Auto-Comiseração.

Sempre com medo de se revelarem realmente, de se expor totalmente. Falam e escrevem por trás de risos e banalidades pseudo-sérias, com fervor e ardor nas convicções que acreditam dever ter, no comportamento que imaginam que os outros acham o seu… e, no meio, disfarçada e subtilmente, a prece por aprovação, por conselho, por ajuda, por um guia. Alguém que lhes pegue na mão e afaste os medos com a força do seu Amor, na qual se possam confortar e ser transportadas para aquele cantinho agradável que só quem já amou e foi amado conhece realmente. Revejo-me a mim próprio enquanto o observo nos outros. Relembro o quão fácil é cair neste falso silogismo, ceder à doce tentação de entregar-nos a nossa felicidade a alguém que vá sempre estimá-la e cuidá-la, tudo na vã promessa de fazermos o mesmo. Sei o quão agradável é colocar a nossa alegria na mão de outros e simplesmente ir cobrando parcelas, como se de uma renda se tratasse.

Sei o quão falso tudo isso é. A diferença entre entrega total e arrendamento especulativo.

Conheço e renego a solidão que leva a termos no nosso mundo quem realmente não queremos, que apenas aceitamos porque estão lá. A facilidade com que nos prostituímos e trocámos o que de mais valioso há em nós, o nosso “eu”, por uns minutos falso de ilusão de companheirismo, parceria ou amor. Ou, então, a arrogância com que nos convencemos da nossa imunidade aos outros, da nossa indiferença aos seus ataques mesquinhos, da nossa impermeabilidade à sua natureza parasita e predatória.

Com que facilidade esquecemos o conselho dos nossos pais: “Mais vale só que mal acompanhado”. (Talvez aí esteja o erro, não é só, é simplesmente sozinho.) E com que leviandade esquecemos as palavras dos nosso avós: “Diz-me com quem andas, e eu te direi quem és.”

Nenhum homem é uma ilha, mas cada um de nós é um indivíduo. Não vale a pena afogar-nos em solidão quando estamos rodeados de multidão. É desnecessário tanto esforço para nos protegermos, quando, no final, somos nós próprios que nos minamos. É inútil procurar nos outros o consolo de nós próprios quando não deixamos ninguém entrar…

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Tuguices

Felizmente, tenho tido a oportunidade de viajar bastante pela Europa. Digo felizmente porque, embora as viagens não tenham sido de recreio, conseguimos sempre beber um pouco doutras culturas. Daí, se mantivermos o espírito aberto, recebemos sempre maneiras diferentes de ver a mesma realidade e de actuar sobre ela. Poderão ser melhores ou piores, não vale a pena discutir isso aqui. Indubitavelmente, obtemos um mapa mais completo da realidade.

Há coisa de umas semanas, estava em Bucareste com um grupo bastante internacional (Alemães, Italianos, Espanhóis, Belgas, Lituanos, Romenos e Tugas - mais um chileno que caiu lá de paraquedas). No âmbito das nossas reuniões, podemos contar com tradução instantânea. Contudo, a vida não é só trabalho e todos temos o hábito de ir tomar um copo, visitar a cidade e descontrair um pouco. Além disso, existem as conversas de corredor.
Embora não seja o idioma nativo de nenhum destes países, o inglês é usado como idioma internacional (excepto pelos Espanhóis, que ou recebem tradução dos amigos Tugas ou ficam de fora das conversas).

Quando, para esclarecer uma qualquer coisa corriqueira, começo a conversar em Português, reparo que uns após outros se vão calando. Quando se torna óbvio que o silêncio não é natural, mas que estão todos a escutar minha conversa, perguntei:
- What is it? Why are you all looking at us?
- Because Portuguese sounds beautifully - alguém respondeu.

Não me recordo o assunto, mas sei que foi uma questão sem importância nenhuma. Ficaram encantados com a sonoridade do Português, a sua cadência, a sua musicalidade.

Às vezes, deveríamos ter mais orgulho em nós. Descobri que os alemães liam Fernando Pessoa. Maníaco-depressivos como são - ou bipolares, para ser politicamente correcto - adoram o Livro do Desassossego, embora também conheçam a poesia (esta manifestamente mais difícil de traduzir). Os italianos conheciam bastante bem várias cidades nossas.

E, numa coisa são unânimes: Por incrível que pareça (e já tinha ouvido isto de outros estrangeiros), todos mencionam a cor do nosso céu.

- Nunca vi um céu com este azul!

Às vezes, deveríamos ter mais orgulho em nós.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Amar é nos maus momentos

Ao rever um episódio de "A Lei do mais forte", deparei-me com as seguintes frases (não verbatim, porque a minha memória não é assim tão boa):
"Amor não se vê quando é fácil. Vê-se que é amor quando é difícil, quando custa, quando há obstáculos e, muito especialmente, quando a outra pessoa não merece. Amar é preciso nos maus momentos."

Este parágrafo deixou-me a pensar... Acredito perfeitamente no que aqui está. É muito fácil quando tudo corre bem. o difícil é aguentar quando a pessoa está longe, quando a pessoa está em baixo e não corresponde como gostaríamos, quando tem atitudes com as quais não concordamos. Aí, e só aí, se vê o valor da relação. Aí, e apenas aí, vemos quem nos ama realmente... e se realmente amamos.

No entretanto, é difícil saber se é amor, paixão, atracção física, hábito ou qualquer outra coisa. Se não nos questionarmos, sozinhos ou com amigos, se não nos reavaliarmos constantemente, corremos o risco de nos auto-iludirmos. E de criarmos expectativas erradas dos outros.

Quando ouvi estas frases, uma questão que me veio ao espírito foi: Muito bem, se isso é que é amor, onde traçamos a fronteira? Qual a medida que separa amor por alguém num mau momento de amor auto-destrutivo? E até que ponto se deve amar e apoiar até à última e o ponto a partir do qual devemos tentar esquecer?

Acho que tal fronteira não existe. O problema não está na outra pessoa. O problema, a existir, está dentro de nós. Nós é que devemos tentar cumprir com duas condições:
  1. Não devemos esperar nada em troca. Podemos querer, mas não devemos entregar apenas para receber. Isso é trocar, isso é o que faz um sacana.
  2. Amar alguém nos maus momentos exige estabilidade, a todos os níveis. Para dar, para nos entregarmos, devemos estar seguros.

Só com estas duas condições estabelecidas podemos amar sem nos magoarmos, só assim estamos realmente livres para o fazer. A primeira impede-nos de procurar no outro a estabilidade que precisamos. A segunda salvaguarda que estamos fortes o suficiente para segurar um barco à deriva.

Então, e onde fica o que queremos? Até que ponto se deve amar e apoiar até à última e o ponto a partir do qual devemos tentar esquecer?

"Um bom encontro é de dois".
Podemos amar, nos maus momentos, mesmo quando a outra pessoa não merece. Mas, friamente, temos de pensar se a contraparte alguma vez nos vai dar aquilo que almejamos. Não significa que tenhamos que deixar de amar - apenas temos que aplicar a condição nº1... e procurar noutro lado aquilo que queremos.

Mas, se for sincero, aquele amor permanecerá sempre, independentemente do resto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Sucesso dos Sacanas

Porquê?!

Qual a razão para que os sacanas deste mundo saiam tanta vez vitoriosos? Como conseguem, vez após vez, ludibriar tudo e todos, apanhando sempre o que querem?
Será maior força de vontade? Maior perspicácia? Maior inteligência? Maior eficácia?

Acho que não. O seu sucesso deriva exactamente do seu egoísmo. Como se poêm a si em primeiro lugar, como sabem o que querem para si, conseguem posicionar-se de forma a ter exactamente o que querem.

Não são mais inteligentes. São menos exigentes.
Querem o que querem através do logro, da persuasão, das falinhas mansas, das mentiras... e acredito que, no seu egoísmo, muitas vezes se convençam a si próprios. Enquanto que a maioria deseja que as coisas lhe sejam oferecidas por si, pelo seu valor, o sacana quer apenas que as coisas sejam para si.

Dinheiro, poder, prestígio, amizade e até o amor... para nós, são formas pelas quais queremos que reconheçam o nosso valor, a nossa pessoa - esse é o nosso objectivo. Para o sacana são esses são os objectivos. E, como se diz, há duas formas de ser feliz: "ter mais ou querer menos".

Agora, nós temos a nossa parte da culpa. Na nossa ânsia de entregar, confundimos aquilo que é uma forma de persuasão com aquilo que pretendemos. Não nos questionamos sobre os motivos que poderão levar a que, aparentemente, nos ofereçam aquilo que queremos e tomamos as coisas pelo seu valor aparente. E aplicamos o ditado: "a cavalo dado não se olha o dente".

Contudo, quando o que está em causa é a nossa felicidade, não nos podemos dar ao luxo de ser ingénuos. Temos de nos lembrar que nem todos são bons, nem todos nos querem bem.

Os sacanas andam aí, à caça de uma presa. E, muitas vezes, andam disfarçados exactamente do que queremos!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Liberdade de Ser

Ela não pensa demais.
Ela não quer pensar, que é para não descobrir.
Prefere ignorar e esconder-se atrás da falsa auto-penitência de quem merece e quer estar sozinha.
Porque tem medo.
Medo de ser julgada e perder o pouco que tem.
Medo de se julgar a si própria, e de não se perdoar.
E irritada... porque o pouco que tem não chega, não aquece, não conforta, não consola.
E confusa... porque os grilhões alheios a prendem. Porque não sabe quem quer ser, mas anseia pela liberdade de o ser.
E sozinha... exacatamente porque receia ficar sozinha se mostrar quem é.

E não compreende, ainda, que sozinha já ela está, perdida em si mesma, com medo de sair. Que tem tudo a ganhar, e nada a perder, em se revelar.
Porque, se assumir a sua liberdade de ser, apenas corre o risco de perder a ilusão de não estar sozinha. Ilusão essa que não lhe é, nem nunca foi, suficiente, que só lhe traz desespero e martírio.
Porque está sozinha, sozinha dentro de si mesma, onde ninguém pode chegar.

E tudo a ganhar, porque tem a hipótese de, pela primeira vez na sua vida, não estar sozinha.



Cá fora, há de tudo. Mas um de nós aguarda essa libertação, porque sabe quem vem aí.