domingo, 8 de novembro de 2009

Expatriado

De volta, passados tantos meses. Pelo menos, assim o espero!

A vida em Angola está repleta de desafios. Sempre acreditei que somos tão grandes como os desafios que superamos. Sem dúvida alguma, Angola provou ser um desafio constante e enorme. Ao contrário do que se possa pensar, não é a falta de certos luxos ou confortos, por mais que isso pese. Também não é a falta dos amigos ou familiares, se bem que isso pese muitíssimo.

Não… O grande factor que contribui para que vários tugas desistam ao fim de uma semana, e tantos, mas tantos, desistam ao fim de um ano, é a total disparidade das pessoas face ao que consideramos familiar.

Faz-me lembrar uma anedota que ouvi há muitos anos: A professora pede à menina rica para descrever uma família pobre. O seu intuito é que a menina perceba as diferenças de classes e a sorte que tem. A menina, que até tem bom coração, vai para casa trabalhar no assunto. No dia seguinte, apresenta a sua composição: “Era uma vez, uma família pobre. A mãe era pobre, o pai era pobre, a ama era pobre, o jardineiro era pobre…”. A menina simplesmente não conseguia imaginar uma realidade tão diferente da sua.

Não é de pensar mal da menina da história. A maioria de nós só conhece e consegue perceber a vida de outras classes porque a observamos e com ela interagimos. E esse é o grande problema de tentar perceber a vida em Angola. Não é uma escala europeia reduzida devido à falta de certas infra-estruturas ou bens. É toda uma cultura diferente, completamente diferente da nossa.

E essa é a grande razão para que tantos tugas decidam voltar a casa ao fim de um ano. É que as diferenças vão-se tornando cada vez mais discerníveis com o tempo que cá passamos. E um sentimento de desenquadramento acentua-se. Em todos os países por onde os tugas se espalham, nascem comunidades que tentam preservar algo em comum de Portugal. Mesmo quando a maioria desses países apresentam culturas e valores muito semelhantes aos nossos, por terem as mesmas bases (Império Romano, Igreja Católica, troca mercantil, etc…). Em Angola, essas semelhanças são apenas aparentes.

Apesar de todos os anos de colonialismo, apesar das dezenas de milhares estrangeiros que aqui habitam, Angola conseguiu assimilar parte dos hábitos “ocidentais”, mantendo em grande escala a cultura que sempre tiveram, uma das mais antigas do mundo.


Mais do que as dificuldades, a falta de luz e água potável, os preços exorbitantes, é a diferença cultural que mais dificulta a vida em Angola. E, para isto, ninguém pode ser avisado. Tal como a menina da história, não há como explicar aquilo que tem de ser vivenciado.

5 comentários:

Fatima disse...

Olha quem voltou!

Abraço

Paula disse...

Seja bem regressado... (veremos por quanto tempo! :p)

Sem retirar a verdade à tua conclusão, é engraçado o dualismo entre o que não te faz falta e o que te choca! Já pensaste que se o que não te faz falta existisse, não sentirias com a mesma intensidade o choque?!

Hélder disse...

Fatima,

Cá estou eu!

Abraço,

Hélder disse...

Paula,

Muito obrigado. Espero que assiduamente!

Pensava ter sido mais claro. Devo estar destreinado. Não digo que não há uma série de coisas que faça falta, apenas não acredito que esse seja o principal motivo de desadequação a Angola.

Obviamente, para quem cá tem família, amigos que já vinham de Portugal, ou outras afinidades, terá uma vida muito mais facilitada.

Por outro lado, são muitos os angolanos que viveram e estudaram em Portugal que se sentem, eles próprios, desenquadrados e procuram a companhia dos portugueses, com quem partilham mais afinidades.

Beijinhos,

Paula disse...

Tu não ias voltar?! :p