quarta-feira, 12 de setembro de 2007

(Auto)Ilusionismo

Vivemos o tempo de indefinição, machos e fêmeas perguntam-se qual o seu papel nesta sociedade teoricamente cada vez mais assexuada.

Em conversas de café, em casas de amigos, em todo o lado, ouvimos falar da Revolução Sexual, dos direitos conferidos, da igualdade entre sexos. E, em todo o lado, ouvimos falar que a mulher é a mulher e o homem é o homem. Vivemos a confusão de termos abolido um código social, sem termos outro pronto a substituí-lo. E, este estado de desorientação e indefinição tem marcado a infelicidade de muitos.

E, nas mulheres, vejo o principal problema. As mulheres de hoje querem tudo. Querem o tipo que as arrebate de paixão, pague o jantar, lhes diga coisas incrivelmente românticas, que as surpreende constantemente, faça amor como um mestre e as mantenha perpetuamente apaixonadas. Mas também querem o tipo que as compreende profundamente, que seja o melhor amigo, que partilha tudo, que seja um companheiro e um parceiro na vida. E que as apoia, ouve, tem sempre a palavra certa, seja bem-disposto e... etc!

Ou seja, minhas senhoras, o raio do tipo não existe! Quem vocês querem é um tipo com a maior auto-confiança que alguma vez já existiu, mas que não seja convencido. Que seja sempre seguro e bem-disposto, que ature todas as birras com um sorriso no rosto e uma surpresa na mão, mas que nunca seja abalado por elas. Querem ser amadas em toda a plenitude, mas acreditam que as vossas dúvidas, ataques e insinuações não têm a mínima influência na relação. E se ele fizer o mesmo? Continuam de olhar terno a assegurar-nos do vosso amor? Ou ficam magoadas e fecham-se dentro de si próprias?

Porque, pergunto-vos, o que dão vocês em troca? O mesmo? A resposta é não! E esse é o problema da indefinição de papéis. Vocês continuam a reger-se pelo antigo código, apenas lhe mudaram os pormenores. Continuam a exigir que o homem seja o suporte de tudo, só que pelas novas regras.

E, para os homens deste mundo, as coisas mudaram. Imaginam uma companheira que seja uma "lady na mesa e uma louca na cama". Com quem partilham tudo, em quem podem confiar inteiramente. Uma mulher inteligente, sensível, que os apoie a eles também.

Que nos permita sermos nós próprios...

E auto-iludimo-nos todos, nesta indefinição do que queremos e do que somos. Andamos perdidos, à deriva, certos num momento, inseguros no outro. Recitamos lugares-comuns de sabedoria popular, buscando incessantemente um modelo comportamental. Ansiando encontrar alguém que nos complete e preencha, uma pedra basilar na qual sustentarmos o nosso ser. Todos, mulheres e homens, procurando, fora de nós, sempre fora de nós, a inspiração, a sabedoria, o suporte.

Somos nós os responsáveis pela nossa interacção com o mundo. Cabe a cada um de nós encontrar-se no meio da multidão, abandonar o egoísmo de que as soluções estão fora de nós. Cabe a cada um de nós ser alguém por si só.

Dos outros, o máximo que podemos exigir é autenticidade, o máximo que podemos fazer é ajudá-los a ajudarem-se. E entregarmo-nos sem reservas, não por retorno, não como investimento.

No caminho, há que apreciar a vida, saborear as pessoas, rir, cantar, dançar, correr, beber, errar... e divertirmo-nos.

6 comentários:

J. Vilas Maia disse...

Boa observação. No entanto, eu tenho é outro problema: se sou auto-confiante, sou caro demais; se sou amigo, não passo disso mesmo, porque os amigos não se levam para a cama, ou seja, só o inimigo tem direito a entrar em lugares de intimidade. Por isso, acho que não tenho opinião para o caso.

abraço

P.S. - os devaneios são necessários.

Mariana Camargo disse...

As pessoas querem-se. O homem e a mulher querem o mesmo. E não me acredito que procurem essa perfeição de que falas. O que nos faz sorrir ao lembrar o outro são exactamente as imperfeições que nos mostram. Assim as pessoas tornam-se reais e não sonhos estúpidos.

htsousa disse...

Mariana,

Concordo perfeitamente quando dizes que o que nos faz sorrir ao lembrar do outro são as imperfeições, os pequenos nadas que definem o outro e que nos fazem bem por dentro.
Mas acho, pelas conversas que vou tendo, por aquilo que vejo acontecer e que me acontece a mim, que nos iludimos constantemente e acabamos por valorizar o "sonho estúpido".
Além disso, creio que na sociedade de hoje, nos impomos a nós próprios a perfeição. Temos como padrão para nós nunca errarmos, sermos sempre perfeitos em todas as situações.

Mariana Camargo disse...

Helder,

Então eu estou realmente fora da sociedade. Não me imponho essa perfeição, pelo menos no amor. Já sei que erro, já sei que digo e faço disparates, já sei que sou incoerente. Só me resta cuidar, ter atenção e tratar sempre bem o outro.

Beijo

M. disse...

Por curiosidade ando aqui a ler-te.. fim de semana é mesmo assim, os meus dias de leitura. Parei neste e fez-me sorrir. Aqui dás uma estranha imagem sobre as mulheres, como demasiado exigentes. De onde te surgiu isto? :)
Penso que este grupo é uma minoria e que no geral uma mulher que goste o suficiente sabe que do gostar faz parte a liberdade do ser, e que só tem de o deixar ser ele próprio. De outro modo é apenas uma egoísta.
Beijo

Ps: estou surpreendida com as diferenças de escrita por estes lados, em relação à que ainda comecei agora a ler. Muito diferente, e muito agradável. Gosto.

htsousa disse...

m.

Não sei se é apenas uma egoísta. É verdade que o texto reflecte as minhas experiências e as minhas opiniões sobre elas.

Mas acho mesmo que a indefinição de papéis sociais se reflecte num estado de exigência muito grande, especialmente nas mulheres, que se regem por dois modelos diferentes.

Isto baseado nas queixas que costumo ouvir de homens e mulheres.

Quanto à escrita, nada mais natural, reflecte estados de espírito diferentes.

Beijo.